Acho curioso como a gente passa a vida inteira esquecendo. Esquecemos o que fizemos em uma terça-feira qualquer, esquecemos conversas que um dia pareceram importantes, esquecemos pessoas que tínhamos certeza de que jamais esqueceríamos. Talvez – sim, eu amo pensar que tudo “talvez” – seja até necessário esquecer, porque seria impossível carregar com a gente tudo aquilo que já passou pela nossa vida, mas, no meio de tudo que desaparece, algumas coisas simplesmente não vão embora. Às vezes nem sabemos quando decidiram ficar.
Eu conheci Robin Williams no sétimo ano, em 2022, quando assisti Patch Adams em uma aula de artes, e é engraçado pensar que, naquele momento, eu não fazia ideia de que aquele filme ficaria comigo muito depois de a aula acabar. Acabei procurando mais sobre ele, ficando completamente fascinada pelo jeito como ele enxergava o mundo, até cheguei a fazer um episódio de um podcast sobre ele na época. Entre as coisas que mais me marcaram estavam a ideia de que cada pessoa tem seu próprio weird little world, esse mundinho estranho e particular que existe dentro da gente e que não deveria ser apresentado a qualquer pessoa. Talvez algumas pessoas fiquem justamente dessa forma, não só como lembranças, mas como ideias que passam a fazer parte do jeito como enxergamos o mundo.
Robin Williams ficou em mim por muitas razões, inclusive algumas que ainda não sei exatamente como organizar em palavras. Existe uma frase dele sobre o suicídio ser uma solução permanente para um problema temporário que sempre me pareceu particularmente dolorosa quando penso na história dele, porque sabemos como sua própria história terminou. Talvez algumas coisas permaneçam na nossa vida porque não conseguimos fechá-las em uma explicação simples, continuamos voltando a elas porque ainda existe alguma coisa que não conseguimos resolver, entender ou aceitar completamente.
Mas outras coisas ficam sem precisar carregar nenhuma dor. Algumas ficam porque são bonitas, porque chegaram em um momento específico, porque conseguiram traduzir uma sensação que até então parecia inexplicável. É o que acontece comigo com Godlight, Maine, Strawberry Wine e Pain Is a Cold Water do Noah Kahan. Acho que isso acontece porque, por mais que tenham suas diferenças, todas transcrevem partes minhas que antes eu não conseguia entender de maneira alguma. Godlight e Strawberry Wine mais especificamente, porque eu já fui uma pessoa muito diferente da que sou hoje. Não me considero encontrada e nem com um caminho definido, mas já fui muito perdida nessa vida, e essas duas entendem uma mudança gradativa com saudades, arrependimentos e valorização da pessoa que sou.
É estranho perceber que uma música pode guardar uma época inteira. Às vezes ouvir alguns segundos é suficiente para voltarmos a uma versão de nós mesmos que já não existe exatamente daquela forma. Não voltamos somente para a música, voltamos ao quarto, ao lugar, às pessoas, aos sentimentos, à pessoa que éramos quando descobrimos aquela música. Talvez a nostalgia seja essa experiência de encontrar, escondida em alguma coisa que ainda existe, uma parte de uma vida que já foi embora.
Histórias fazem coisas parecidas. História de um Casamento ficou comigo porque me pareceu uma representação muito mais humana de um relacionamento terminando do que aquelas histórias em que existe um culpado claro e, no final, todo mundo descobre que deveria ter ficado junto. O que destrói aquele casamento parece muito mais silencioso, a falta de admiração, a falta de reconhecimento, a dificuldade de enxergar o outro e, talvez principalmente, a dificuldade de ela continuar enxergando a si mesma. Provavelmente algumas histórias ficam porque nos ensinam a olhar para alguma coisa que já estava diante de nós, mas que ainda não sabíamos como enxergar.
Um Dia me marcou por outra razão. Talvez porque seja difícil acompanhar duas pessoas demorando tanto para finalmente ficarem juntas sem pensar no tempo que passa enquanto esperamos que alguma coisa aconteça. Existe algo curioso em perceber que algumas coisas chegam, mas chegam tarde, que existem momentos que podemos viver e momentos que, depois de passados, não existe amor suficiente para desenvolvê-los. Algumas histórias ficam porque nos lembram que o tempo não é apenas aquilo que passa, é também aquilo que não podemos recuperar.
E pode ser que seja por isso que certas frases permaneçam tanto quanto histórias inteiras. Eu ouvi pela primeira vez em Lembranças aquela frase de Gandhi: “whatever you do in life will be insignificant, but it’s very important that you do it because nobody else will.”, e simplesmente me apaixonei pela visão de mundo que era carregada com si. Depois, anos mais tarde, mencionei a ideia da frase em uma conversa com alguém de quem gostava – quase amei -, e ele soube parafrasear perfeitamente e em inglês ainda por cima (não teve como, a frase ficou tanto que naquele mesmo instante eu faltei explodir de paixão). É uma lembrança pequena e gostosa, quase insignificante quando comparada às coisas que costumamos considerar importantes, mas ela ficou.
Fun fact sobre a memória: ela não parece ter o mesmo conceito de importância que nós temos.
Uma conversa pode durar horas e desaparecer completamente, uma frase pode durar alguns segundos e permanecer durante anos, um filme pode contar uma história de pessoas que nunca existiram para nós e, ainda assim, mudar a maneira como enxergamos pessoas que existem, uma música pode ser ouvida por milhares de pessoas e, para cada uma delas, significar alguma coisa completamente diferente. Talvez aquilo que fica não seja necessariamente aquilo que foi maior, mais importante ou qualquer coisa assim, mas aquilo que encontrou alguma semelhança com nosso interior.
Acredito que pelo mesmo motivo algumas coisas vão embora também.
Nem tudo que sentimos profundamente precisa permanecer, nem tudo que foi importante precisa se transformar em uma memória eterna. Existem pessoas que amamos e que um dia deixam de fazer parte da nossa vida, existem músicas que um dia ouvimos todos os dias e que depois nunca mais procuramos, filmes que nos fizeram chorar que, anos depois, mal conseguimos lembrar da história. Isso não significa que foram menos verdadeiros enquanto existiram, talvez algumas coisas simplesmente tenham vindo para ocupar um lugar específico na nossa vida e depois seguir seu caminho.
Acho que existe certa beleza, misturada com desespero, nisso. Nós queremos guardar tudo porque temos medo de perder, mas talvez uma parte da experiência de estar vivo seja aceitar que não podemos. Não conseguimos conservar todas as pessoas, todos os momentos, todas as versões de nós mesmos. Algumas coisas ficam, outras passam, e acredito que nenhuma das duas coisas seja uma medida exata do quanto elas significaram.
Meio que a gente passa tempo demais tentando decidir o que merece ficar, quando algumas das coisas mais importantes da nossa vida simplesmente ficam sem pedir licença. Não cabe a nós determinar quais pessoas, músicas, histórias ou momentos vão atravessar os anos conosco, mas cabe a nós estar presente o suficiente para vivê-los enquanto existem, porque algumas coisas ficam, outras vão embora, e nenhuma das duas precisa parecer uma tragédia.
O que importa é que, por algum tempo, elas estiveram aqui. E nós também.

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