Existe uma ideia que aparece com frequência quando somos jovens, principalmente quando somos jovens e ambiciosos, que é meu caso agora, de que a nossa vida de verdade ainda não começou. Estamos sempre nos preparando para alguma coisa como a faculdade, para o estágio, para a carreira, para o momento em que finalmente teremos dinheiro suficiente, maturidade suficiente. Existe sempre alguma coisa logo depois da próxima coisa, e talvez seja muito fácil passar anos acreditando que estamos apenas construindo a vida quando, na verdade, já estamos vivendo uma versão dela.
Eu penso muito nisso quando lembro das mulheres que cresci vendo em filmes e séries. É curioso perceber como, tantas vezes, parece existir uma escolha silenciosa entre ser uma mulher que constrói uma vida própria e ser uma mulher que constrói uma vida ao lado de alguém. Como se fosse possível ter as duas, mas nunca exatamente ao mesmo tempo, ou como se uma delas inevitalmente precisasse ocupar o lugar que a outra deixou vazio.
Trato isso constantemente em terapia.
Rory Gilmore talvez seja uma das personagens que melhor representa essa obsessão com o futuro. Desde o começo de Gilmore Girls, ela é aquela garota que sabe que precisa estudar, que tem objetivos, que lê, que quer ser jornalista, que vai para Yale, e existe uma expectativa quase geral de que ela seja extraordinária. Ela chegou lá porque era isso que deveria acontecer com uma menina como a Rory, e talvez por isso seja tão intrigante ver ela se perder justamente depois de conseguir aquilo que passou tanto tempo querendo. Não to falando que a história dela tenha sido sobre fracasso, muito menos que a Rory tenha “jogado Yale fora” de maneira simples – até porque depois ela volta -, mas existe alguma coisa desconfortável em perceber que uma pessoa pode passar tanto tempo se preparando para o futuro e ainda assim chegar nele sem saber exatamente o que fazer.
A Paris, por outro lado, sempre pareceu saber. Ela queria Harvard e estava disposta a fazer pratcamente qualquer coisa para chegar lá, estudou, trabalhou, competiu, organizou a própria vida em torno da ideia de que precisava ser ótima ou nada – referência de little women -. E daí ela simplesmente não passa. É quase cômico, considerando a personagem, que parecia ter transformado a própria existência em uma “máquina de alcançar objetivos”, tenha precisado descobrir que um objetivo específico não era capaz de dizer qual era o valor de sua vida inteira. Ela acaba sendo bem-sucedida, mas não exatamente da maneira que imaginou, e talvez essa seja uma das coisas mais interessantes em seu trajeto. Perdeu Harvard e não perdeu a própria vida com ela.
Talvez porque a gente fale muito sobre a importância de ter um sonho e pouco sobre o que acontece quando o sonho deixa de existir da forma como imagiávamos. É fácil dizer que devemos fazer sacrifícios enquanto somos jovens porque teremos tempo depois, o que é mais difícil é perguntar se o “depois” realmente vai parecer com o que estamos imaginando agora.
Já a Lane me faz pensar em tudo isso de outra forma, ela também tinha alguma coisa que parecia ser só dela. A música, a banda, aquela vontade enorme de sair da vida que a mãe dela tinha imaginado para ela e descobrir o mundo por conta própria. E, no entanto, segundo Gilmore Girls vai andando, a vida da Lane parece ficar menor. Ela se casa, tem filhos, continua ligada à música, mas dá uma sensação estranha de que a garota que queria tanto descobrir o mundo acabou ficando presa em uma versão muito menor dele.
E eu não acho que o problema seja ela ter se casado ou ter tido filhos, isso seria uma conclusão muito simples e até injusta. Uma mulher não precisa construir uma carreira absurda para ter uma vida absurda, do mesmo jeito que uma mulher não precisa querer filhos para ter uma vida completa. O que me incomoda na história da Lane é a sensação de que talvez ela não tenha escolhido conscientemente entre a música e a família, entre a vida que imaginava e a vida que acabou tendo. Talvez uma coisa simplesmente tenha acontecido enquanto a outra ia desaparecendo.
Existe uma diferença entre escolher uma vida diferente daquela que imaginávamos e simplesmente acabar dentro de uma vida que nunca chegamos a escolher.
Haley James Scott, de certa maneira, está do outro lado dessa discussão. Ela poderia ter ido para Stanford, e existe uma tendência muito forte de olhar para uma oportunidade assim como se ela espécie de erro. Mas Haley escolhe outra coisa, ela escolhe o Nathan, escolhe Tree Hill, a música, a família, uma vida que não parece seguir a trajetória acadêmica que poderia ter seguido. E eu não sei se acho que ela estava errada.
Talvez Stanford realmente não fosse a vida que a Haley queria, talvez, para ela, aquela oportunidade não valesse o preço de deixar para trás as pessoas e as coisas que naquele momento importavam mais. E quem somos nós para olhar de fora e dizer que uma vida é melhor do que outra apenas porque aparenta ser mais prestigiosa?
E porvavelmente seja por isso que eu pense tanto na Jo March. Jo parece entender, desde muito cedo, que existe uma parte dela que não pode ser resumida a um relacionamento. Ela quer escrever, quer ter uma vida que seja dela, e existe nela algo como uma urgência em provar que ser mulher não significa ter uma mente menor, desejos menores ou uma vida necessariamente focada em outra pessoa. Ela tem medo de amar não porque não queira ser amada, mas porque acredita que pode desaparecer no meio disso, como se aceitar um relacionamento significasse abrir mão de tudo aquilo que ainda queria ser – assim como eu -.
E, de novo, talvez essa seja uma das coisas mais bonitas e, ao mesmo tempo, mais tristes na história dela. Jo é tão determinada a não se perder em alguém que, por muito tempo, acreditou que a única maneira de continuar sendo ela mesma é não deixando ninguém chegar perto o suficiente para fazer parte da sua vida.
Só que existe uma chance considerável de o problema nunca ter sido apenas o amor em si, assim como também não é a carreira, o problema é quando qualquer uma dessas coisas começa a ocupar tanto espaço que não sobra mais nenhum para o resto. Uma mulher pode querer uma carreira brilhante e ainda querer uma família, pode querer se casar e continuar querendo escrever, pode querer filhos e ainda ter ambições que não tem absolutamente nada a ver com eles.
No fim, a real é que não dá para eu dizer qual dessas coisas mais vale a pensa, e talvez seja exatamente essa a pergunta que eu queira deixar. Eu sei que quero muito alumas coisas para o meu futuro, e sei também que ainda quero viver muitas outras coisas enquanto chego até ele, mas acho que o mais difícil é descobrir quais sacrifícios fazem parte de seguir um sonho e quais são apenas coisas que estamos abrindo mão porque nos convencemos de que a vida de verdade começa depois.

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