É curioso perceber como algumas das maiores transformações da política aconteceram sem que a maioria de nós percebesse. Se alguém perguntasse, há algumas décadas, onde se decidia o rumo de um país, provavelmente responderiam que era no Congresso, nos partidos, nas campanhas eleitorais e etc. Essas instituições continuam sendo fundamentais para qualquer democracia, mas tenho a impressão de que uma parte importante da disputa política começou a acontecer muito antes de chegarmos até elas. Quando escolhemos um candidato ou uma causa para defender, alguém já disputou nossa atenção muito antes.

Essa talvez seja uma das características mais marcantes do século XXI. Nunca tivemos acesso a tanta informação e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão difícil distinguir aquilo que realmente merece nosso tempo. Todos os dias somos apresentados a vários vídeos, notícias, comentários e opiniões e, honestamente, é impossível acompanhar tudo, mas fazemos escolhas todos os dias com base no que vemos, então talvez seria justo se questionar “quem faz essa escolha por mim?”.

Esse questionamento pode até parecer meio exagerado de cara, mas ele começa a fazer sentido quando percebemos que nosso tempo é limitado. O economista Herbert Simon escreveu, em seu ensaio na década de 70, que um excesso de informação produz uma escassez de atenção. Na época a internet sequer existia como hoje conhecemos, mas sua colocação continua surpreendentemente atual. Se a quantidade de informação cresce desenfreadamente e nossa capacidade de consumi-la continua praticamente a mesma, então em que você coloca sua atenção passa a ter ainda mais valor – e como acontece com qualquer coisa de valor finita, pessoas começam a competir incessantemente por ela.

É por isso que as maiores plataformas digitais muito dificilmente podem ser enxergadas apenas como “big-techs”, porque o modelos de negócios delas depende especificamente de fazer com que permaneçamos ali maior tempo possível. Isso não significa que existe uma pessoa escolhendo a dedo quais vídeos cada indivíduo particularmente vai ver, na verdade, esse trabalho é feito por algoritmos – algo que ainda conversaremos por aqui em outros posts -, conjuntos de instruções que organizam uma quantidade infinita de conteúdo de acordo com certos critério. O ponto aqui é que esses critérios raramente têm como objetivo te mostrar aquilo que é mais verdadeiro ou mais relevante, eles procuram sempre mostrar aquilo que tem uma chance maior de prender nossa atenção.

A consequência disso vai muito além do entretenimento. Um algoritmo não precisa convencer ninguém de uma ideia para manipular, definir quais assuntos aparecem repetidamente e quais passam despercebidos já é suficiente. É por ai que a tecnologia e a política começam a se encontrar.

Na década de 70, os pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw desenvolveram a teoria do agenda-setting, que dizia que os meios de comunicação não costumam dizer às pessoas o que pensar, mas conseguem influenciar sobre o que elas pensam. Hoje, essa lógica parece fazer ainda mais sentido, porque a diferença é que a construção da agenda pública já não depende só dos jornais, mas também das plataformas digitais e de seus algoritmos.

Não estou falando que somos completamente manipulados ou até incapazes de formar opiniões próprias, seria uma conclusão simplista. Nós ainda podemos buscar outras fontes, questionar o que consumimos e discordar do que aparece na nossa tela, mas ainda assim, nenhuma opinião surge do nada. Antes de defender algo, precisamos entender a fundo, e antes mesmo disso alguém, independente de quem ou por onde seja, ajudou a decidir quais temas ocupariam espaço na nossa cabeça. Provavelmente seja por isso que algumas discussões tomem conta do debate público enquanto outras, que são tão importantes quanto, continuam praticamente invisíveis – como o post que eu fiz sobre Quando existir se tornou um ato político?´.

No fim, a parte que mais me interessa não é se as redes sociais fazem bem ou mal para democracia, esse discussão é importante, mas existe uma questão antes dessa que é quantas das preocupações que tivemos essa semana nasceram da nossa própria mente e quantas surgiram porque certos assuntos aparecem constantemente diante de nós? Não acredito que tenha uma resposta tão simples para isso, mas aprender a fazer esse tipo de questionamento talvez seja um dos primeiros passos para entender a política atual, até porque, antes de disputarem nosso voto, meios de comunicação, movimentos sociais, plataformas digitais… disputam algo muito mais discreto, e agora eu você já sabe o que é.

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