Toda vez que leio uma notícia sobre o Afeganistão, sempre a mesma pergunta me vem à mente: por que exatamente as mulheres?
Não é uma pergunta retórica, é bem sincera na verdade, porque, se olharmos só para os fatos, eles são majoritariamente repetitivos. Mulheres proibidas de cursar universidades – me graduar é um dos meus maiores sonhos, então essa questão me traz certo desconforto -, restrições ao trabalho, à circulação e à presença em diferentes espaços públicos. Um dia desses, vi em uma rede social um curta-metragem que criticava indiretamente não ser comum mulheres afegãs irem ao mercado desacompanhadas de seus homens responsáveis (pais ou maridos), e ficou claro, para mim, que a cada novo decreto do Talibã, o alvo parece ser sempre o mesmo.
Mas o que existe de tão “perigoso” em uma mulher?
Antes achava que essa fosse uma pergunta sobre religião, depois começou a passar pela minha cabeça que poderia ser uma questão cultural. Hoje já não tenho tanta certeza disso, porque quanto mais eu leio sobre o assunto, mais explícito fica de que essa nunca foi uma questão apenas sobre mulheres, e sim sobre poder.
Enquanto escrevo este, estou fazendo algo tão comum que nunca cheguei a de fato pensar sobre isso, até agora. Estou nesse exato momentos organizando minhas ideias, escrevendo o que penso e publicando minhas reflexões para pessoas que eu talvez nunca venha a conhecer, chega a parecer banal ou irrisório. Nunca precisei pedir autorização para estudar, ler um livro, me interessar por política ou postar um texto na internet. Desde que nasci, para mim, isso é simplesmente a vida acontecendo.
Mas não é, não quando se conhece demais realidades e enxerga o tamanho do privilégio, e acho que essa seja a parte que mais me incomoda.
Porque privilégio costuma parecer uma coisa absurdamente extraordinária, quando, na verdade, estou apenas falando coisas que deviam ser comum a todos. Ler, estudar, trabalhar, caminhar até uma biblioteca, imaginar um futuro. Nada disso devia depender do sexo que você nasceu.
Em algum lugar do Afeganistão, tem uma mulher que talvez tenha a mesma curiosidade que eu, talvez ela goste de história e filosofia mas poderia se dar melhor com matemática, como eu, talvez sonhe em ser física mas se atraia muito pela engenharia também, como eu, e talvez tenha mais talento para qualquer uma dessas coisas. A grande diferença entre nós não está na inteligência ou em nossa capacidade de pensar, é que, na verdade, eu posso publicar esse texto, ela talvez não possa nem sequer escrever um.
O que será que tem de tão perigoso em uma mulher escrevendo?
Isso deveria causar maior desconforto do que de fato causa nas mulheres que já tem seus direitos garantidos, porque me causa um desconforto absurdo pensar que um homem tem algum controle sobre mim. Pensar que a sociedade afegã entende que um homem deve ter controle absoluto sobre mim, apenas por eu ser mulher.
E no resto da sociedade também, inclusive nos homens.
Imagine sua mães, irmã, esposa, filha. Imagine você não poder ver sua noiva entrando na igreja enquanto você a espera no altar, imagine ela não poder aparecer com aquele vestido longo branco deslumbrante, imagine seus pais não poderem assistir esse momento com você, nem seus parentes e amigos mais próximos.
Pense em suas filhas não podendo contar a você como foi seu dia na escola e tudo o que elas aprenderam naquele dia, sua irmã tendo que escutar e aceitar tudo o que seu marido a disser, indo já para seu terceiro filho aos 18 anos, sua mãe não poder aproveitar um dia de praia de roupa de banho com sua neta.
Tudo por serem mulheres afegãs.
Acho, de certa forma, feio ter que imaginar um homem sofrendo por ver uma mulher que lhe é importante sofrendo para entender o sofrimento feminino, mas infelizmente é assim que se alcança várias mentes. Pensando com empatia, até para com os que não merecem.
Existe uma tendência curiosa quando falamos dessas mulheres. Nós costumamos a transformá-las em notícia, em uma foto, em números. Dizemos que milhões de meninas estão sem acesso à educação, que universidades foram fechadas para mulheres, que organizações internacionais denunciam graves infrações aos direitos humanos. Claro que tudo isso é verdade e extremamente importante, mas, as vezes, tenho a sensação de que esse excesso de dados acabam por esconder consideravelmente aquilo que de fato importa: estamos falando de pessoas.
Pessoas que acordam de manhã, fazem planos pro dia, se apaixonam, sentem medo, criam filhos, têm dúvidas sobre o futuro, querem viver uma vida que lhes pertença. Mulheres.
Talvez seja justamente isso que esteja sendo retirado delas, não só seus direitos, mas a possibilidade de construir uma vida própria.
Existe uma diferença importante entre impedir alguém de fazer alguma coisa e impedir alguém de existir em paz em qualquer espaço. O que vem acontecendo no Afeganistão desde 2021 parece andar na segunda direção. Quando meninas deixam de ir a escola, quando mulheres deixam de ocupar universidades, certos empregos e diferentes espaços da vida social, elas não desaparecem necessariamente em forma física, mas começam a desaparecer como essência. Aos poucos, deixamos de ser vistas, ouvidas e consideradas.
Pensando nisso, entrei em algo que se parece como uma prisão dentro da minha cabeça por causa da minha impotência em relação ao assunto.
Não consigo contar quantas vezes fui interrompida por um homem enquanto falava, nem quantas vezes tive que escutar uma “piada” machista em uma roda e preferi não responder para não ser taxada de dramática ou exagerada, e também não consigo lembrar de todas as vezes em que um comentário na rua me fez acelerar o passo ou mudar de calçada.
Não estou nem pensando em comparar essas experiências com a realidade de mulheres afegãs, seria irresponsável. Eu continuo podendo estudar, votar, escrever aqui e decidir para onde minha vida vai, mas existe alguma coisa em comum entre essas experiências.
Durante muito tempo, pensei que o que me incomodava era o comentário, a piada ou o assédio em si, agora atualmente penso diferente. O que realmente me incomoda é perceber que existe, discretamente, uma relação de poder em cada uma dessas situações.
Quando um homem acha que pode comentar sobre o corpo de uma mulher que nunca viu antes, ele parte do pressuposto de que tem algum direito sobre aquele momento; quando interrompe uma mulher constantemente, parte da ideia de que sua voz é digna de mais espaço; quando uma piada machista gera risadas e mais piadas, o que é naturalizado não é só o preconceito, mas sim toda uma estrutura hierarquica.
Talvez seja por isso que o Afeganistão me assusta tanto. Lá essa estrutura deixa de ser só social e passa a ser também política, passa a ser institucional, passa a ser organizada pelo próprio Estado e aceita pela sociedade.
Quanto mais eu leio sobre isso, menos acredito que o problema seja a educação feminina, o trabalho feminino ou a presença feminina nas ruas, essas coisas são, honestamente, apenas consequências de seus medos cmo instituição. O verdadeiro problema parece ser a autonomia feminina.
Uma mulher que estuda aprende a fazer perguntas, uma mulher que trabalha consegue ser independente, uma mulher que tem independência pode dizer não a escolhas que lhe for impostas, uma mulher que participa da vida pública influencia outras mulheres, e uma mulher que escreve, externaliza ideias.
E ideias sempre foram perigosas para qualquer regime que depende da obediência de um certo grupo.
Talvez por isso que escolas costumam incomodar governos autoritários. Não porque ensinem matemática ou literatura, mas porque ensinam pessoas a imaginar possibilidades diferentes daqueles que lhes foram oferecidas e a questionar suas realidades.
Quanto mais uma sociedade gera pessoas autônomas, mais difícil se torna controlá-las. Isso me faz voltar à minha pergunta de início: por que exatamente as mulheres?
Também me incomoda, e muito, quando essa discussão é resumida à religião. Essa costuma ser a explicação mais rápida – e, talvez por isso, a mais confortável -, mas ela esquece de um fato importante que é que o Islã é vivido de jeitos muito diferentes ao redor do mundo.
Existem mulheres muçulmanas estudando, trabalhando, pesquisando, ocupando cargos políticos e construindo carreiras em vários países, e é isso que me faz pensar que o Afeganistão não está apenas na religião, mas nas vantagens que se obtém a partir da maneira que a impõe.
Quanto mais penso sobre esse assunto, menos acredito que as mulheres foram as escolhidas por serem os “alecrins dourados”, o objetivo não me parece ser controlar mulheres. O que parece incomodar ou ameaçar eles, é aquilo que a autonomia feminina representa.
Provavelmente seja exatamente essa capacidade de existir sem autorização de um certo alguém que determinados regimes não conseguem tolerar.
No fim, percebi que esse texto nunca foi “só” sobre o Afeganistão.

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