Se alguém me perguntasse há alguns anos qual era a forma de governo mais estável do mundo – provavelmente eu não saberia responder por ser muito nova -, depois de poucos minutos de pesquisa eu responderia que é a democracia. Até porque, ela parecia tão presente que chegava a ser enxergada como algo já garantido. Mas é só abrir um jornal ou entrar em qualquer rede social para perceber que a situação talvez seja um pouco mais complexa que isso.
Nos últimos anos, tornou-se comum escutar que as democracias estão em crise, tanto que diversos índices internacionais registram queda democrática contínua. A Freedom House aponta que a liberdade global caiu pelo 20º ano seguido em 2025. Mas será que as democracias realmente estão mais frágeis do que há vinte anos? Ou será que apenas estamos olhando para elas de uma forma diferente?
Relatórios internacionais mostram um declínio gradual em indicadores relacionados à qualidade democrática em diversos países. O V-Dem Institute relatou um exemplo interessante sobre esse declínio, dizendo que existe um processo de autocratização global em curso há cerca de 25 anos e uma queda dos níveis médios de democracia. Segundo o Freedom House, em 2025, 54 países tiveram piora em direitos políticos e liberdades civis, enquanto apenas 35 melhoraram. Ao mesmo tempo, governos com tendências autoritárias passam a ter mais espaço em diferentes regiões do planeta. O que chama atenção nesses registros não é só a quantidade de países afetados, mas o fato de que isso aparece em regiões que são muito diferentes entre si.
No primeiro momento, esses números fazem parecer que a pergunta já está respondida. Mas indo um pouco mais a fundo na questão, talvez seja importante pensar em o que significa uma democracia ser “frágil”. Ela é frágil quando entra em conflitos constantemente? Quando as pessoas perdem a confiança nos políticos? Quando grupos deixam de dialogar por suas diferenças? Ou quando instituições que deveriam limitar o poder dos governantes começam a enfraquecer aos poucos?
Boa parte dessas preocupações atuais estão ligadas justamente à confiança. Em muitos países, os cidadãos sentem que seus representantes não resolvem problemas importantes como desigualdade, inflação, insegurança alimentar ou corrupção. O relatório Trust Barometer da Edelman e pesquisas do Pew Research Center documentam baixos níveis de confiança em governos em várias democracias. Quando essa frustração cresce, cresce também a busca por líderes que tendem a prometer soluções rápidas. Mas a história mostra que soluções rápidas nem sempre são soluções democráticas.
Outro ponto que torna o cenário atual tão característico é a tecnologia. Há vinte anos, a maioria das pessoas recebia informações por alguns jornais, revistas e emissoras de televisão. Hoje, qualquer pessoa pode publicar conteúdo para um número ilimitado de usuários. Mais de 5 bilhões de pessoas utilizam redes sociais globalmente, permitindo publicação direta de conteúdo em larga escala. Isso ampliou o acesso à informação, o que é algo positivo, mas também tornou muito mais fácil espalhar notícias falsas, teorias conspiratórias – uma prova curiosa é termos até hoje pessoas que acreditam fielmente que a Terra é plana -, e discursos que alimentam divisões.
Neste contexto, aparece uma dúvida importante : a internet tornou a democracia mais conveniente quando deu voz a mais pessoas ou a desestabilizou quando complicou a formação de consensos? Acredito que possa ter feito as duas coisas ao mesmo tempo.
Também vale considerar outra ideia. E se as democracias não estiverem exatamente mais frágeis, mas só tenham se tornado mais expostas? Algazarras políticas que antes demorariam semanas pra ganhar repercussão, hoje circulam em minutos. Crises que acontecem em qualquer parte do mundo chegam imediatamente em nossas telas. Talvez vejamos mais problemas porque temos mais acesso a informações sobre eles.
Não estou dizendo para ignorar os sinais de alerta. Existem provas reais de atrasos democráticos em diversos países. Entretanto, a própria chance de debater esses problemas publicamente pode ser vista como uma comprovação de “força” democrática. Até porque, sistemas autoritários tendem a esconder seus defeitos, enquanto democracias costumam expor eles.
No fim, talvez a questão não seja só por que as democracias parecem mais frágeis hoje. Talvez deveríamos perguntar o que faz uma democracia continuar potente. Seriam as leis? As instituições? Os governantes? Ou os cidadãos que participam e questionam o poder?
Claro que já foi explicitado aqui que existem motivos legítimos para preocupação. Mas também falei que a democracia não é algo que se assemelha a um bolo de massa pronta ou a um nó em um barbante. Ela depende de escolhas que seguem sendo feitas diariamente pela sociedade. Provavelmente sua fragilidade toda não seja um sinal de que está se dissolvendo, mas sim um lembrete de que precisa ser constantemente cuidada e abastecida.

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